segunda-feira, 27 de agosto de 2012

noção

Não diga não diga
duplo silêncio
nem aja apenas
dupla pena de agir

reponda responda
e você não vai ouvir
ou o ouvido saltará
o corpo ouvirá
e o lábio
como a porta
que não é transição de caminhos


sinta não sinta
sofra e não sofra
para que saber
se a dúvida é a saída?

futuro o futuro
não sei e será não sei
e este desepero?
deixe desesperar

embarcaremos amanhã a viagem sem voo com pouso necessário ou apenas a nuvem dançando e bulindo como uma criança estúpida e

sem noção.
uma boca talvez
ou os lábios
sem a boca
apenas os lábios
e o desejo
do mais que o sexo
do mais que o desexo
o desejo
da fruta
saber todo do desejo
corporificada
em névoa?

umbilical

Coloquei a mangueira

no umbigo

e reencontrei a mãe perdida

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

sozinho em sampa (frascos da metrópole)

Sozinho em Sampa
o grafitti das ruas
em meu nome
mensagens diárias
que ninguém busca ver.

meu coração o silêncio

- os fazedores de rima como bardos mudos-

meu coração o silêncio
e observo o abrir de porta do ônibus:

prostitutas, travestis, swingers
a igreja ao lado, um casamento,
um mendigo e um terno:

apenas atravesso a rua
às vezes para ir ao trabalho
às vezes apenas bêbado

...daquele quarto vazio em que me encontro
um arranha-céu brota na sala
dezenas de shopping centers no meu banheiro
dou a descarga.
Na cozinha,uma flor,
mais um litro de gasolina


e hoje durmo mais tarde contando carneiros ou horas extras não pagas...

ao meu redor, pessoas,
sou um sábio sem dizê-lo,
vi a luz e mudo;
messias sem milagre.

...nas avenidas,além dos carros,
meu corpo inerme,
minha tristeza cinza, meu prejuízo sem palavras.


Acordo cansado.
mas as calçadas me aliviam
sou um caminhante, um flaneur sem querer.
começo a conhecer a cidade ou
ela a conhecer-me
suas mãos me tocam como uma noite

o já vivido, o perdido, o luto, o futuro, a incerteza, a loucura -

- batata frita, uma cerveja, um filme hoje, estou sem dinheiro
estou sem amigos, estou sozinho,

sozinho em sampa.

- hoje talvez eu morra debaixo daquele jardim sem que nem mesmo uma planta saiba meu nome ou minhas unhas

- ou então, um estranho talvez, e uma vida...

:e eu viva:

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


Você me lê muito fácil
eu continuo sendo o garoto do interior
o limite da vida:
o limite da casa,
da escola.


Lido todo,
mas não lido,
exposto como carne aos canibais
e suplicando apenas para que eles não saibam
a chave para
a refeição do mais que corpo


Lido
e com medo muito medo
parecia um jacaré sem garras ou escamas
só a pele fria
os olhos brilhantes
e me adaptando a temperatura do ambiente


lido
eu tétrico
o medo da autorevelação
a fragilidade
a dependência e a morte

o buraco negro que se abre para um amador

já lidei com facas
tiros
mas morro mesmo
é com o menosprezo
mas morro mesmo
é com a solidão
o abandono
dono abrangentemente
do meu sono
do meu dia
meu eterno prazer
de ser o mais desgraçado
o mais coitado
o mais repudiado

- minha vaidade acima de tudo!


lido
e sem progressão.
lido.
estupidamente lido.
e sem remédio
só pude assumir
me sentir humano
me sentir humilhado
e nada
nada perfeito.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O bom-moço

Educadinho...

vai a merda - primeira reação.
Mas, quem é que vê

sob

toda a raiva
toda a ironia
a pervesão

e quem vê

sobre

o medo
a insegurança
a desconfiança?

Educado?

um maldito apenas,
será isto,
mal educado,
senhoras e senhores?




Um toque subversivo

Ainda medroso
pálido
em branco

sou como uma folha de papel antes.


mas, este fogo
pálido
em branco

que surge como contraresposta

que é isto?

Um dia achei que era uma oração
não, não sou santo.
Outro, pensei que fosse o cálculo do etéreo


Hoje... que pensar?

Talvez os dias
inúmeros rasgados, taças quebradas,
estilhaços apenas do que eu suspeitava não surgir nunca


e veja surgiu...

tacanho
inútil
vazio


desprezado
medíocre
pobre


e os críticos deitam em cima


eu sou no entanto
ali
em diversão
fogo nas mãos
e levitando

com as minhas dores
queixas
e aquele silêncio que ninguém veio a entender

ninguém acompanhou
o momento soturno
o momento hediondo
o momento simplemente alegre

mas eu vi
menoscabado
e menoscabal

este pequeno poema
escrito
idiotamente

e quem poderia calá-lo
se nem mesmo eu pude

se nem eu mesmo pude consolar suas lenhas

e vê-lo aqui
num toque subversivo:
queimo-brotando?