domingo, 16 de setembro de 2012

amende

seus olhos são como ovos
de cujas gemas
se fazem chamas

seus olhos são como favos
de cujo mel
nasce da lama

e duros e firmes e fortes

- seus olhos como um tronco

seus olhos

- castanhos! -

como a tarde morna
o café da manhã
seus olhos,
sementes em lenhas,

minhas cinzas

que se espalham pelos campos
e se espargem pela terra.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

cara,
não me leve a mal
não quero ser o inimigo

e entendo bem que você tenha que me odiar

e nem quero que você me entenda arrogante por trazer esta mensagem

antes de tudo é apenas uma posição diferente em que estamos
e não queria ter de ver você passar por isso

a dor de estar atravessando a porta
enquanto o vento ligeiro a atravessa em sentido contrário

não, cara,
não é isso
não venho substituí-lo
não venho tomar postos
ninguém tem postos neste mundo


posso eu ser também apenas passageiro
ou então posso me firmar
mas o que isso muda?

em nada sou , você é melhor
não disputamos
apesar do claro fato do nosso desejo se apontar para a mesma ideia


não quero brigas
e sei ser bem normal
mas tento pensar isso
e não consigo não me sentir
mal pela situação
não consigo mesmo


o amor
é isto
cara

não conseguimos dar nomes
e odiamos quem não conhecemos
apenas porque
pensamos tratar-se de termos ido embora

partido de vez

mas, talvez,
não seja nem eu nem você e nem nada

a dor, cara
vem pra todos
pra mim
pra você

e nem eu e nem você sequer ganharemos
algo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

de certa forma eu lhe tenho raiva
enputecidamente
porque você me torna ridículo
me evidencia as coisas mais estúpidas
os vícios e pieguismos mais não naturais
revela minhas máscaras de sedução de quinta categoria
me deixa nu

apenas um homem e suas fragilidades
e a total falta de potência.


Por outro lado é exatamente isso
que gosto em você
porque de tanto ficar fulo
vejo minha fraqueza
aquele vazio enorme que é não ser aceito
que é ser refutado nas fórmulas de de sedução
é ver que o personagem não sou eu
e sou na medida de que uso dele
para não ter que lidar com o fato de não ser aceito
para o fato de que o que mais temo
é o total abandono

há anos venho sabendo como conquistar as pessoas
para não ficar sozinho
há anos venho me fazendo de herói
me fazendo de bom moço apenas para que se encantassem por mim

- que grande manipulador eu sou...
e você me desvela sem nenhum detetive
e me sinto frágil em suas mãos
como se eu fosse me despedaçar a qualquer momento
mas nunca lhe diria isso
seria dar ainda mais poder ao que você já sabe

e eu não posso mais ficar na mão de ninguém

anos e anos
sempre sendo o objeto do outro
sendo a satisfação do outro
sendo a metafísica do outro
e o preenchimento de vazios

no entanto,sempre fui em vazio
quando não pude ser objeto
quando tive de ser sujeito
quando tive de ser apenas eu
entre o ar
quando tive de ser livre

enquanto na maior parte do tempo
minha felicidade residiu na prisão de ser-me para o outro
de quase adaptações doentias
e bom-mocimos cotidianos
heroísmos

e eu e o cavalo subindo o castelinho
tijolos estúpidos e prazerosos
de salvador
de ser ideal...

quando encontrarei a realidade?

E você sabe
e é por isso que te odeio
porque você desvela
e mostra quão vulgar eu sou
quão ridículo
quão chulo
apaixonadíssimo
e fingido
quão hipócrita em última instância

e tudo para que me amem
para que me aceitem
tudo porque eu mesmo não vou muito com a minha cara

tudo porque eu não me olho no espelho e vejo a minha figura
mas me concentro sempre na inversão do espelho
e não da sujeição de outra coisa
diferente de mim
melhor
ou ainda


qualquer coisa que eu seja sem a prisão da identidade


Por que amo tanto isso
por que me faço tanto de bom?
por que me coloco nesse jogo
nessa trama
nesse amor pela escravidão
de meus próprios hábitos construídos?

O prazer de ser algo
o prazer de ser aceito
de pertencer a este discurso de si
de ser algo
de ser a identidade de além de algo além de mim

talvez eu devesse me casar
ter uma vida burguesa normal
ser o homem enfim bom
o maridinho perfeito
o homem da novela
o rapaizinho educado
bonitinho
elegante
cortejador de mães
risonho de pais

o típico mauricinho babaca

talvez eu devesse me reduzir a esta angústia
e ficar aqui me depreciando
buscando acabar comigo
rasgar-me inteiro
ruminar a minha não aceitação
buscando meu masoquismo como forma de criar a fala como consolo


estes versos não me consolarão
são apenas um linha que quer continuar tensa
que quer extravasar

tudo porque neste momento eu queria mesmo era explodir sua cara
esmurrar você até olhar a sua caveira
arrancar os seus olhos e comê-los
ou talvez atacar-te sexualmente como forma de sublimação da fragilidade

atacar-te para poder
mostrar que no fundo
sou eu é quem tenho o poder
e não fui facilmente lido e ricularizado
mas na verdade
que sou eu quem manda
quem confere poderes as coisas


mas me diga
você também não ridicularizará isso?
e o que quer que eu faça,
não será ridículo
talvez eu devesse apenas aceitar
sou ridículo


e isso dói
pela vaidade as tripas isso dói
e dói também o ter sequer um beijo seu
como sou também sou um romântico tolo e frágil

que acha que terá a aceitação de tudo
pelo outro
que busca apenas o carinho do outro
o amor do outro
sem realmente buscar amor

eu não amo
em verdade
eu apenas quero ser reconhecido como bom
eu quero apenas que me digam

sim carlos
você é foda
não há ninguém como você

como você é sensível
como você é gostoso
como você transa bem


enfim
como você é um covarde, carlos.

um medroso de se olhar de verdade
como algo que produz
sim
e algo que é frágil também
algo fraco inúmeras vezes
e forte também
suscetível ao medo
e à insegurança
mas alguém vivo sobre tudo
e tentando quem sabe


e é por isso que te odeio
e por outro lado te admiro
porque com você isso fica explícito

e no fundo eu talvez nem te ame
senão a mim mesmo no que posso conseguir me ver
não obstante isso

talvez isso seja um outro galanteio
que espere que você se incline a gostar quando ler

talvez eu deva me calar...
as palavras de repente aquietando-se

apenas virá o silêncio e o vazio
nunca mudarei isso totalmente

e talvez tenha que me aceitar assim
ridículo
e com todo o amor
ao não deuses

e aos domingos
e solidão.